Blog duma gaja... bem... esquisita, estranha, tarada:) Enfim... queer!

3.02.2006

TransAméricaS

Fui ver TransAmérica. Não posso dizer que tenha sido uma desilusão porque não tinha de facto muitas expectativas.
Este filme fez-me lembrar alguns filmes americanos com supostos transgénero da década de 80 - é de facto horrorosamente mainstream.
Antes de me adiantar mais gostaria de salvaguardar um aspecto: eu não sou a pessoa mais adequada para falar deste filme - o que não quer dizer que seja totalmente desadequada. Mas resumindo: oiçam os transgénero, não liguem ao que eu diga.
Em primeiro lugar a América é hoje a única terra dos múltiplos géneros, ou seja, a única onde existem realmente comunidades de pessoas que se vêem a si próprias como nem homens, nem mulheres - gender outlaws, genderfuckers, genderbenders, eu sei lá!
Mas não são estas as comunidades retratadas. O que não é totalmente descabido porque Américas há muitas e o estudo geográfico do transgenderismo americano ainda mal começou. E existirão por lá pessoas como a personagem central do filme, certamente. Mas serão poucas, não tanto pela forma como é uma pessoa nascida genitalmente macho que tenta ser como a sua imagem duma mulher estereotipada da classe média, mas principalmente pela forma como nos é apresentada como uma personagem quarentona psicologicamente saudável no meio duma imensa solidão e falta de reconhecimento. A grande maior parte das pessoas que vivam no contexto que nos é apresentado suicidam-se. E este não é um detalhe de somenos.
Um aspecto muito importante do filme, mas que é tratado com demasiada leveza, é a forma como as pessoas que queiram fazer operação genital para mudarem de genitais têm que se sujeitar a uma patologização prévia da sua condição, mesmo que se sintam equilibradas - veja-se a entrevista psiquiátrica em que a personagem não sabe se deve responder preto ou branco para lhe ser dada a autorização. Outro aspecto levianamente tratado é o poder que todos os psis têm sobre estas pessoas, exigindo-lhes uma coerência de género, e no caso até de vida, que muitos de nós, e deles (psis), não têm.
Outro aspecto horroroso do filme é a total des-sexualização da personagem: a personagem tem um arroubo romântico com um homem mas nunca é retratada como uma pessoa com desejo sexual. Ora isto irrrrita-me! Vá lá, vá lá, aparece um casal lésbico trans, ambas M/F - também excessivamente romanticizado mas enfim...
Finalmente, a opção por fazer um filme sobre a América gender outlaw com uma personagem que deseja um total re-alinhamento com o estereótipo feminino: não desvalorizando a necessidade das pessoas que o pretendam, não deixa de ser o transexualismo mais convencional deste mundo...
Resumindo: já perceberam porque é candidato aos Óscares?

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