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9.02.2006

Álvares e o desejo em Lacan

"O desejo não é produção incessante de força criadora, de substância, de vida, mas o resultado da acção mortífera do símbolo sobre a coisa: “o símbolo manifesta-se como assassínio da coisa e esta morte constitui no sujeito a eternização do seu desejo” (Lacan, 1966: 319). O desejo é a essência do homem, sim, mas na medida em que a exterioridade e a prioridade do simbólico – que constituem o próprio inconsciente – o aliena e o separa do objecto. Nesse corte, nessa perda, instala-se o desejo.
[...] o homem não reage ao instinto mas ao significante [...] Donde a distinção fundamental entre necessidade, pedido e desejo. Porque fala, o sujeito aliena a necessidade em pedido. O que assim é perdido da necessidade por não ser articulável no pedido (que diz respeito a outra coisa que não a satisfação a que apela), esse resto do pedido, é o desejo [...]. Alienado ao jogo do significante que é incapaz de o dizer directa e plenamente na sua verdade, o desejo envolve-se na via da metonímina, errando entre múltiplos objectos parciais: ele é paradoxal, desviante, excentrado, escandaloso, impossível de satisfazer. [...] o desejo do homem é o lugar do Outro, pois é do lugar do Outro – do discurso do Outro que é o inconsciente – que ele deseja. Por isso, o desejo é opaco para o sujeito.
[Daí que] A ex-sistência é o exílio do sujeito em relação ao gozo e manifesta-se no impasse estrutural de que padece a sexualidade humana.
Este impasse estrutural tem o nome de castração. [...] O mito [de Édipo] dá a forma de drama familiar ao efeito da estrutura da linguagem sobre o sujeito. [...] A castração é então uma operação simbólica que faz surgir o falo como significante da falta [a renúncia à mãe, em ambos os sexos, é perder a garantia de um gozo absoluto], obrigando o sujeito a situar-se em relação a ela pela escolha duma identidade sexual [que não é sexo, nem género].
[Mas nem por isso o homem desiste; não, ele in(ex)-siste]. A partir dos anos 1960 [Lacan] [...] regista uma inflexão que refere o desejo ao gozo e que se traduz na teorização do objecto como causa do desejo, vazio que o fantasma vela, e como plus-de-jouir, resto de gozo que escapa à inscrição significante e que incessantemente relança a função entrópica da pulsão forçando o acesso à Coisa, o insuportável do para lá do princípio do prazer que é também para lá do princípio da realidade. A função pacificante e estruturante do desejo, que se sustenta dessa cicatriz da castração que é o fantasma [a tal forma própria de renunciar ao gozo absoluto, a identidade sexual], está assim constantemente ameaçada pelo deus maligno do gozo cuja acção esquartejante sobre o desejo é comparada por Lacan à “automutilação do lagarto que perde a cauda em sofrimento” (idem, 853). [...] sendo a pulsão a via do desejo, via essa pela qual o sujeito repete a perda do objecto – donde resulta o plus-de-jouir -, a referência do desejo ao gozo permite pensá-lo num campo, o do Real [já não só o Simbólico], que mostra a impossibilidade da sua satisfação plena."

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