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6.20.2007

O queer como racionalidade política

“(...) pensar o evento de um outro modo (único, imprevisível, sem-horizonte, in-domável por qualquer ipseidade ou qualquer performatividade convencional e, por conseguinte, consensual), um pensar marcado num por-vir que, para além do futuro (uma vez que a exigência democrática não espera), nomeia o vir de quem virá ou do que se virá a dar, nomeadamente o recém-chegado cujo irromper não pode nem deve ver-se limitado por uma hospitalidade condicional imposta nas fronteiras policiadas do Estado-nação”. Uns estudos queer de tipo fraco, vadio e incondicionalmente hospitaleiro seriam de molde a franquear as suas fronteiras e a tornar-se porosos (algo que obviamente implicaria uma abertura a outras línguas e uma crítica da soberania de seja que língua for, e concretamente do inglês como língua franca dos estudos queer), abrindo-se inclusivamente (...) à possibilidade de “talvez um dia abandonar essa herança – esse património – que é o nome, que é mudar os nomes” . Este deixar acontecer metaperformativo e perverso – ou perverformativo -, faz a “soberania voltar-se contra si própria”, compromete a sua imunidade e recorda-nos que a democracia está sempre “em processo de auto-imunização”. (p. 137)
O texto mais filosófico e utópico da revista é “Que há de tão queer na teoria queer por-vir?” de Michael O’Rourke. É também o mais ambicioso pois que faz coincidir a racionalidade queer com uma nova racionalidade política em geral.
A teoria queer-por-vir corresponde ao indeterminável, monstruosos e vadio futuro dos estudos queer. Esse indeterminável coincide com um novo Iluminismo, uma nova razão democrática por-vir, uma messinicidade sem messias, sempre diferida, adiada, anti-identitária. Ela nasce duma recusa incondicional da soberania, ou seja, duma fonte última e absoluta da autoridade. Esta nova justiça-por-vir é uma teoria queer fraca (por oposição à força soberana) que pensa a imprevisibilidade de um evento necessariamente desprovido de horizonte, ou seja, o singular vir do outro. O queer é a metáfora política da ausência de um referente fixo. Halperin dizia que era o apontar em frente sem saber ao certo o que apontar.
O caminho nesta direcção é uma vadiagem, uma caminho não di-recto (non-straight), um princípio de desordem estruturada conspirando contra a ordem pública; são também vadios os outros que continuamente chegam ao corpo dos estudos queer. A humildade epistemológica de estar disponível ao outro, sempre descentrado, gera a sua/nossa contínua contestabilidade e re-significação, num processo permanete de auto-imunização, de negociação e mudança para inclusão do outro em prol da preservação, de autocriticabilidade e perfectibilidade. Esta exposição ao outro, àquilo e àquele que lá vem, ao monstruosos chegante, é sempre incalculável e constituiu uma metaperformatividade, um esperar sem esperar, um deixar que aconteça.
“(...) os movimentos antiglobalização, com esses vadios que se erguem contra o Fundo Monetário Internacional, o G-8 e o Banco Mundial a perfilarem-se como as mais vadiocráticas encarnações e implementações da messianicidade sem messianismo, capazes de vir a gerar um mundo mais queer. A força fraca dessas bestas intratáveis, marchando de encontro a todas as organizações hegemónicas deste mundo, é aquilo que melhor prefigura a democracia por-vir neste nosso tempo de emergência global” (p. 133)

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