Blog duma gaja... bem... esquisita, estranha, tarada:) Enfim... queer!

3.04.2006

Ainda TransAmérica

O André disse-me que tinha adorado a composição da personagem transexual (assim como outras personagens), principalmente o trabalho de voz. Ora, do ponto de vista técnico concordo; do ponto de vista político isso só me irrita mais e me faz pensar em todos aqueles filmes de brancos a representar negros. Ora, não existirá já uma boa actriz transexual para fazer um papel destes na América?!!!!

6 Comments:

Anonymous Galo-Mor said...

E por que razão, senão por razões políticas? E, do ponto de vista artístico, não seria essa a solução mais fácil? E não se cairia assim num efeito perverso, que é um actor/actriz transexual só fazer papeis de transexual? Não fiquei nada convencido com a sua opinião, Anabela. Já me parece uma daquelas opiniões altamente restritas e condicionadas por políticas de identidade. O olhe que eu acho que o filme, de um ponto de vista político, resulta muito bem. Muito melhor do que seria se a actriz em causa fosse...um verdadeiro transexual! Pense no assunto...

13:14

 
Blogger Anabela Rocha said...

Galo-mor: ninguém defendeu a ideia de que um transexual só pode fazer papéis transexuais. Aliás, está aqui a ser defendida a ideia contrária: que é estranho não existirem transexuais actores (de qualquer tipo de papel).
Mas o ponto principal é este: quando um actor tem que representar efeitos corporais para simular identidades que de facto existem no mundo real, porque é que sistematicamente são simuladas essas identidades e não representadas por quem as assume?

13:36

 
Anonymous Galo-mor said...

Anabela, por que simular é a essência da profissão de actor... E ainda que a Anabela não sugira a ideia de que um transexual só pode fazer papés de transexuais, que eu percebi perfeitamente, parece-me defender a ideia de que é a transexualidade é uma condição privilegiada para assumir um papel (fictício) de transexual. E é dessa ideia que eu não partilho. Então um gay está melhor preparado para «fazer de conta» que é gay, uma lésbida para «fazer de conta» que é uma lésbica, etc., etc., etc. E se há, de facto, personagens que TÊM que incarnar em determinados corpos, muito dificeis de produzir artificialmente (como, por exemplo, uma personagem que exige um corpo jovem a ser feito por uma actriz mais velha; ou uma personagem que exige um corpo caucasiano a ser feito por um actor negro, etc.), isso não acontece para um corpo transexual. Pode ser incarnado por uma mulher, por um homem, por um negro, por um branco e também, claro está, por um transexual. Mas, digo-lhe já, que se fosse eu o realizador, nunca faria essa opção. Cheira-me a facilitismo e a comercialização do exótico. O que, de forma nenhuma, é semelhante a utilizar um actor transexual para fazer uma personagem masculina ou feminina, note-se! Continuo a achar que a sua opinião está contaminada pela sua posição política, a qual não será a mais positiva em termos de cultura cinematográfica ou teatral.

15:10

 
Blogger Anabela Rocha said...

Galo-mor: concordo inteiramente com TUDO o que diz.
Mas critico o seguinte: que NUNCA um transexual tenha sentido segurança e oportunidade para se afirmar como actor de cinema na América; que em TODOS os papéis de transexual se veja um não transexual.
E mais especificamente quanto ao corpo deste filme, deste personagem - porque é isso especificamente que está aqui em causa: enquanto trabalho de representação e enquanto efeito político não se teria tudo a ganhar se se jogasse ABERTAMENTE com a questão dum transexual "passar ou não passar" pelo género que elege? Não seria essa uma forma muito mais rica e complexa de mostrar que muitos de nós também nem sempre "passamos"? E que, afinal, todos estamos muito mais preparados para lidar com essa ambiguidade do que pensamos e queremos reconhecer?
É que o que a mim me parece é que esta questão central está "anestesiada" no filme e que o espectador é tratado com menoridade - e aos transexuais não é dada a oportunidade de se re-presentarem orgulhosamente nessas ambiguidades das "passagens".

17:22

 
Anonymous Joaquim said...

Oh Anabela... não te parece que ter uma dona de casa desesperada a fazer este filme deu uma enorme visibilidade ao filme (sejamos honestos, o facto de ser a Felicity a fazer o filme deu imensa publicidade)? E muita gente foi ver o filme porque ela era a actriz. E ela representa de uma forma muito humana. Se calhar, em termos sociais, muita gente passou a ver os transexuais de uma forma diferente.

13:06

 
Blogger Anabela Rocha said...

Joaquim: concordo e penso que era isso que o Galo-mor queria dizer ao afirmar que o filme resulta melhor com uma não-transexual. Mas digamos que o ponto até onde resulta (e até esse ponto resulta muito para muitos) não me satisfaz. Porque como se pode fazer um filme destes e não haver uma única cena que nos perturbe em termos de fixação do género da personagem? Porque é essa ligeira perturbação, esse desconforto, esse desafio, o cerne da vida social de muitos transexuais (não de todos; alguns passam sempre (pelo género que elegeram) - e com isto não quero dizer que são melhores ou que têm de passar. Acho assim que um aspecto central da vida da maior parte fica de fora.

17:26

 

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