Blog duma gaja... bem... esquisita, estranha, tarada:) Enfim... queer!

3.20.2006

A Inocência e o Pecado II

Inês Pedrosa voltou à carga na Única desta semana. Como não tenho acesso ao link, transcrevo:
"Dias virão em que a polémica sobre o casamento dos homossexuais nos parecerá tão abstrusa quanto nos parece hoje a polémica sobre a alma dos negros ou a bruxaria. A diferença entre o nosso tempo e esse outro, de há apenas dois séculos, reside nessa pequena frase cuja verdade aprendemos a reconhecer: «É apenas uma questão de tempo». A História não serve para grande coisa, porque nenhum tempo se repete e as pessoas não dispensam o encanto do erro e a vitalidade erótica do improviso. Mas essas horas que passámos na escola a arquivar reis e sistemas sociais deviam pelo menos ensinar-nos a relativizar as miudezas do mundo, ensinar-nos que aquilo que nos tem feito sobreviver como espécie é o Amor, nas suas múltiplas e gloriosamente confusas declinações, e o Sexo, também infinito, substantivo carnal da curiosidade e da entrega, irmão do Amor e pai da Guerra que só no Amor se apazigua. Isto é simples, e está escrito desde Homero, e só não nos facilita a vida porque ninguém quer ter tempo para parar e olhar para dentro do tempo. Temos medo de cair - meninos pedalando furiosamente uma bicicleta de rodas demasiado altas, com medo de nos espetarmos no chão à primeira paragem. «Do chão não passas», dizia-me o professor Hermenegildo Candeias, do velho Sport Algés e Dafundo, quando eu hesitava diante do plinto, e essas lições de ginástica têm-me valido em todas as vertigens existenciais.

Vivemos depressa para vivermos pouco, temendo que o excesso da vida nos leve à morte. Tudo nos leva à morte; o que mais pode adiá-la é a coragem de intensificar a vida, uma coragem que consiste na escuta dos nossos sonhos mais profundos. Mas os sonhos são entidades obscuras e comprometedoras, escavadas na terra do coração como as grutas onde morámos no breve tempo da adolescência, quando pecado e inocência se assemelhavam a centelhas de luz num mesmo diamante. «É apenas uma questão de tempo», dizemos, depois, quando o diamante de desfaz entre os nossos dedos e se transforma num feixe organizado de «questões» separadas. Ora, não há questões separadas; o tempo é a única questão, a nossa pele progressivamente enrugada - nem isto aprendemos ainda? Esticámos o tempo da vida para, aparentemente, vivermos menos - com uma paciência para com a crueldade que não tínhamos quando éramos menos sábios e, por conseguinte, mais cruéis.

O ostracismo social a que votamos as pessoas que amam pessoas do seu próprio sexo não tem hoje qualquer sustentação «teórica» ou «científica». Sabemos que a orientação sexual não é uma doença e não é uma opção. Sabemos que o facto de ser homossexual não diz rigorosamente nada sobre a «bondade» ou a «perversidade» de uma pessoa, nem sobre a sua capacidade de assumir compromissos permanentes. Entre os casais mais felizes e estáveis que conheço encontram-se vários casais de homossexuais - e especifico esse estado de felicidade, sempre difícil de descrever, porque a estabilidade não é um valor em si mesmo, ao contrário do que os múltiplos poderes que se cruzam sobre as nossas vontades nos querem fazer crer. Talvez seja tempo de investigar a que ponto não será o culto económico da «estabilidade» responsável pelo pavor do compromisso que ataca as nossas sociedades. Se abafarmos a necessidade de surpresa e de instabilidade das pessoas, aproximamo-las da «estabilidade» dos rebanhos - o que, ironicamente, tem consequências económicas desastrosas. A Espanha, mesmo aqui ao lado, já percebeu que o que instabiliza perigosamente um país é que os seus cidadãos não tenham direitos iguais - e aprovou, tranquilamente, o casamento
civil dos homossexuais.

O que fazem as religiões é lá com elas: há dias, uma jovem que aspira a casar pela Igreja Católica porque, no seu conceito, «a festa assim é mais bonita», mostrava-me, revoltada, as folhas do curso de preparação para o matrimónio em que a magia íntima da atracção física surge reduzida a «uma inclinação espontânea e instintiva, impulsiva, egoísta e possessiva». No mesmo curso, distribuem-se fichas de «apreciação» à noiva e ao noivo com itens diferenciados: enquanto se pede ao noivo que avalie «as qualidades como dona de casa» da noiva, a ela pede-se que avalie «a atenção à família» do futuro cônjuge; enquanto a noiva deve avaliar se o seu querido tem «personalidade forte», o noivo deve avaliar se a sua amada tem dotes de «doçura e ternura». Disse-lhe: quer casar católica, agora já sabe em que consiste o catolicismo. Numa religião, a pessoa, se quiser (e só se quiser) inscreve-se e acata - e ninguém tem nada a ver com isso. Há gostos para tudo, até para viver sob a violência do duplo padrão.

Já quanto ao casamento civil dos homossexuais, nenhuma sociedade que se diga democrática pode fazer outra coisa - sob pena de, perpetuando a discriminação, estar a legitimar a violência contra os discriminados. Tal como ninguém pode ser obrigado a assumir os direitos e deveres que um casamento implica, nenhum par de amantes pode ver o seu amor escorraçado pela lei, caso pretenda assumir esse compromisso de vida. Mete-se pelos olhos dentro que o assassínio de um transexual por um bando de adolescentes é consequência directa de ostracizações sucessivas, quer dos homossexuais, quer dos adolescentes, que cresceram privados do direito essencial que qualquer pessoa tem a um lugar de afecto personalizado (vulgo, família). Mesmo os mais liberais titubeiam quando se fala de consentir a adopção a pessoas homossexuais, «porque a criança será discriminada na escola», esquecendo que essa discriminação desapareceria através da norma - exactamente da mesma forma que os filhos de pais divorciados que, há vinte anos, eram postos de lado pelos «normais», hoje são considerados iguais aos outros. Esta conversa é a outra versão do célebre «eu não sou racista mas preocupo-me com o que sofrerão na escola as crianças mulatas». Não é uma questão de tempo - é sempre e só a cegueira de quem nunca se aventurou a escutar a voz do Amor. E não há outra. "
Ainda por cima, lindo!

3 Comments:

Blogger C_mim said...

Se tu soubesses como este texto hoje faz tanto sentido em muitos sentidos...

É lindo sim... e (in)felizmente é também o reflexo da realidade.

15:18

 
Blogger Anabela Rocha said...

Pois, a crónica duma escritora ainda é diferente da crónica de um jornalista, por mais excelente que este seja:)

10:32

 
Blogger Irina said...

Obrigada pelas visitas em meu blog, tenho escrito pouco, mas trabalhando demais. Esse seu texto é muito parecido com a realidade que temos aqui no Brasil e intrisicamente ligado ao que faço.

19:47

 

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