Blog duma gaja... bem... esquisita, estranha, tarada:) Enfim... queer!

6.20.2007

Conheçamo-nos então

Também na RCCS António Fernando Cascais explicita em “Diferentes como nós” os vários momentos históricos por que passou o movimento lgbt português.

Começa por esclarecer que não existe movimento antes do 25 de Abril, mas que o 25 de Abril por si só não é o suficiente para o seu nascimento.
As oposições à ditadura não tiveram agenda (homo)sexual, apenas a “questão da mulher” (numa perspectiva laboral) e a “questão da juventude”.
Nesse artigo é identificada a principal ambiguidade desse movimento nascente, a saber, o facto de ter como referencial cultural e político um sector que frequentemente o enjeitou, nomeadamente o sector da esquerda; por ser uma esquerda que nos anos 60 e 70 passou ao lado das transformações culturais que então ocorriam, ainda por ser uma esquerda que, pós-25 de Abril, se depara com um país de tal forma atrasado que cai na tentação de afunilar o questionamento e a acção política, e por ser uma esquerda que nunca soube integrar, de forma visível e descomplexada, os homossexuais assumidos e/ou as suas associações no seu seio (ao contrário de Espanha onde na oposição anti-franquista existiam já embriões de associativismo gay e onde o movimento homossexual surge associado às movimentações políticas autonómicas da Catalunha, afirma Cascais).

No pós-25 de Abril Cascais divide historicamente a evolução do movimento da seguinte maneira:
“1974-1990 – primeiro período (com um eixo em meados da década de 80)
1990-1991 – período de transição, com características mistas
1991-1994 – segundo período
1995-1997 - – período de transição, com características mistas
1997 ao presente – terceiro período”

No primeiro período “A esquerda partidária e sindical, sobretudo comunista, (…) define-se em função do ruralismo tradicional e do industrialismo do séc. XIX e é herdeira directa da cultura neo-realista que, como notou Eduardo Lourenço (1978), veicula uma imagem populista idealizante do povo português que prolonga e chega a reforçar, mas não subverte, o nacionalismo do Estado Novo”. É assim que a “questão homosexual”, como bem refere, é adiada para um futuro sem classes e considerada uma questão divisionista pequeno-burguesa.
Mas o que se mantém fundamentalmente, enuncia Cascais, é a suspeita face a uma [qualquer] revindicação identitária no quadro fundacional duma esquerda de matriz iluminista [e que nunca, e ainda não, criticou o seu falso universalismo; exemplo gritante disso é o facto de não termos ainda sequer políticos feministas]. Daí que a resolução da “questão homossexual” fosse vista como uma resolução meramente legal, um caso de reconhecimento de direitos sem qualquer especificidade, enquadrada em secções como a “libertação do quotidiano” e a “transformação da vida”.
De notar que é neste âmbito que a medicalização da homossexualidade começa também a ser tratada, no âmbito mais vasto da medicalização do desvio e da anti-psiquiatria, o que constitui o primeiro avanço da cultura científica de esquerda [não resisto aqui a agradecer a uma tal Teresa, minha prof. de Psicologia que, em 1982, no meu 10º ano, me deu a ler a bíblia da anti-psiquiatria, Cooper].
Neste período os homossexuais não têm literalmente voz, são objectos do discurso dos outros, à excepção de Guilherme de Melo, o primeiro a falar em nome dos “homossexuais”.
Aponta ainda a breve existência do MHAR (Movimento Homossexual de Acção Revolucionária), em Maio de 1974 [a que pertenceu António Serzedelo], que não sobrevive à resposta pública de Galvão de Melo, logo após.
A dificuldade em penetrar na esquerda leva alguns a formar, em 1980, o CHOR (Colectivo de Homossexuias Revolucionários), apoiado na organização cultural Culturona, em cuja sede junta centenas de pessoas no seu lançamento. Não sobrevive à dita mas realiza ainda os Encontros “Ser(homo)sexual”, pelo CNC, em 1982, onde o próprio Cascais apresenta o primeiro texto de reflexão teórica sobre o movimento.

A reformulação da esquerda de molde a poder reconhecer a agenda emancipatória homossexual só se inicia com o cruzamento de três factores: a adesão à Comunidade Europeia, o cavaquismo e a epidemia da sida.
É no quadro desta esquerda arcaica e presa no séc. XIX que, afirma ainda Cascais, a emancipação homossexual é frequentemente empurrada para uma esquerda revolucionária, uma esquerda de recusa outsider do sistema [de que é ainda sintoma o discurso das ditas “questões fracturantes”]. Disso é sinal o nascimento do GTH (Grupo de Trabalho Homossexual) do PSR (Partido Socialista Revolucionário).
Este primeiro período é dividido em dois, em 1982, quando a crise económica e social leva à crise da participação política e associativa e ao fechamento da maior parte dos espaços gay de Lisboa.
Já em 1986, com a adesão, surge a expectativa de acesso ao adquirido europeu, nomeadamente cultural e jurídico, que não mais deixará de influenciar a abertura da esquerda à agenda homossexual. A partir de 1987 o cavaquismo força a esquerda a repensar-se.
Em 1986 a morte de António Variações é sentida como tragédia colectiva sobre a comunidade gay.
É na história da relação do movimento homossexual com o combate à sida que Cascais vem a assumir aspectos que António Serzedelo reclama há muito e que sempre foram escamoteados (escamoteamento esse que continuou a gerar desconfianças inter-associativas durante muitos anos...). Reconhece Cascais que o movimento associativo homossexual nasce no movimento de luta contra a sida, ganha visibilidade e respeitabilidade pública nele (uma vez que não era forte anteriormente não sofre o backlash que sofeu o movimento americano e beneficia do politicamente correcto tratamento de um qualquer outro paciente de sida, na base, indiferenciada diga-se, dos direitos humanos e da cidadania; para isto contribuiu também o atraso da comunicação social em tratar o tema, o que evitou a fase perigosa dos “grupos de risco”) e, isto é que nunca tinha sido assumido antes, sofre os custos de um certo paternalismo desse movimento contra a sida [e aqui não é esmiuçado um dado importante: como surge esse paternalismo. A Abraço, que se via a si própria como elite médica esclarecida, em reunião com as associações lgbt, pretendia ser ela a liderar a comunidade...].
Aqui, e uma vez que se trata de pensar a influência do movimento de luta contra a sida na formação do movimento lgbt, penso também que seria intelectualmente honesto referir a forma como o apoio económico da Comissão Nacional de Luta Contra a Sida possibilitou em grande medida, e possibilita ainda, a sobrevivência financeira da associação homossexual mais institucional, a Ilga Portugal.
Ao invisibilizar este aspecto Cascais pode deixar de mencionar que é esta ocultação que permite que o discurso emancipatório gay surja desvinculado do discurso de luta contra a sida, mesmo quando as cinco Marchas anuais (ainda em 1997-2002! – veja-se como estava esta comunhão enraízada) em Memória e Solidariedade com as Pessoas Infectadas com o VIH/SIDA são organizadas pela Ilga Portugal (aspecto simbólico fundamental que não refere), quando isso era, à época, um aspecto bem mais problemático dentro do movimento (para aqueles, como a Opus Gay, que defendiam o afastamento do movimento da organização – que não da participação – nestes eventos, e o afastamento da dependência financeira da CNLCS, assim como da CML…).
Cascais acaba até por dizer que a associação com a luta contra a sida traz visibilidade respeitável à comunidade homossexual, quando o que se passou, no meu entender, foi que foi feita uma grande luta em todos esses anos, nomeadamente pela Opus Gay, para que outras agendas homossexuais surgissem mediaticamente e desvinculassem efectivamente o movimento da vaga persecutória ligada à sida que poderia ter sofrido…
Cascais prossegue enunciando uma modificação estratégica na agenda gay por efeito da epidemia: da luta pela cidadania sexual centrada na reivindicação de direitos respeitantes à conduta prática e à identidade, para uma centrada nos direitos na relação [também aqui me parece que esta foi uma modificação dominante mas não foi a única; há quem tenha persistido na primeira linha, e ainda hoje privilegie outras lutas que não o casamento…]. Esta estratégia possibilita um discurso de integração, igualdade e indiferença. É por estes caminhos que começa a ouvir-se o construcionismo queer e a afirmação do lgbt para além do gay.

Com a terceira fase do movimento, a partir de 95-97, a comunidade torna-se um sujeito histórico dotado de voz própria: o Clube Safo e o PortugalGay.Pt e a Korpus em 96, a Ilga, o Festival de Cinema e a Opus em 97, o Vidas Alternativas em 99.
Cascais refere que existe um acolhimento por parte da esquerda, que culmina com João Soares à fente da CML, mas, a meu ver, há que analisar o discurso de Soares, e não só as práticas de apoio à Ilga e ao Festival de Cinema, para concluir se há ou não um acolhimento ou se há apenas um aproveitamento político e turístico…
Até aos nossos dias surgem múltiplas associações, até for a dos grandes centros, diferenciadas internamente, com capacidade de acolhimento de eventos internacionais, reconhecidas pelo associativismo mundial. A articulação com a academia é ainda puca. Mas existe [alguma] interlocução com as instâncias governamentais e político-partidárias. Nesta fase aúrea penso que falta enunciar um aspecto simbólico importante, que é a inscrição em eventos nacionais importantes património da esquerda, como o 25 de Abril e o 1º de Maio, de que teve iniciativa a Opus Gay. Também neste sentido, aproveito desde já para referir que me parece de suma importância a participação no centenário da República em 2008 (adiamentos do casamento para lá dispensam-se, no entanto…).
Ao invisibilizar as sementes de algumas discódias inter-associativas dentro do movimento lgbt, Cascais pode também dar-se ao luxo de não referir o triste espectáculo de exclusão da Opus Gay e dos seus dirigentes em vários processos que decorreram no Fórum Social Português, aspecto importante pois foi uma grande oportunidade de acção e questionamento trans-associativo a nível nacional que ficou inquinada e des-energicizada por isso.
O final do artigo lança um alerta: “(…) o associativismo atinge [hoje] aquilo que tudo indica ser um limite de crescimento, o qual, por sua vez, é contemporâneo (mas não o efeito) do início de uma reacção anti-emancipatória e de um ambiente político e mediático adverso que configuram uma nova situação agónica, não sem certas similitudes com aquela que o precipitou.” (p. 124)
Não é essa a minha intuição. Penso que o associtivismo vai é que mudar, renovar-se, de estilo e de instituições. E também não vejo um clima adverso – vejo até a possibilidade de uma maior aceitação da nossa agenda via agenda anti-globalização.
Contra este decair que identifica Cascais aponta como solução o auto-conhecimento [fundamentalíssimo]: quem somos, património histórico, sócio-história, etc [daí ser fundamental exigir ao Estado um serviço de recolha de dados nacional e profundo, conforme recomenda a UE]; e o conhecimento dos nossos inimigos.
Por fim, e reconhecendo o esforço notório e pioneiro de sistematização de Cascais neste seu artigo, não deixo de sentir algum desconforto por não ver nele reflectidas as preocupações mais especificamente lésbicas, motivadas por outras forças que não a epidemia da sida, muito mais ligadas, via Clube Safo e diversas pequenas publicações, ao desenvolvimento social e cultural do que ao desenvolvimento político. Mas esse retrato, reconheço-o, terão eventualmente de ser as lésbicas a fazê-lo…

12 Comments:

Blogger antidote said...

"antes do 25 de abril" etc.

ao contrario de espanha. os homossexuais foram perseguidos de forma oficial e nao debaixo do pano como em portugal. isso obrigou as organisacoes e partidos da resistencia antes da queda do franquismo e com continuidade depois, a tomar uma posicao clara acerca da dignidade e proteccao da pessoa lgbt

15:52

 
Blogger Anabela Rocha said...

Mónica: essa história também está por fazer.
O que eu gostaria mesmo de ajudar a abrir com este post era a narrativa a outras experiências, diferentes das minhas e das de Cascais...

16:29

 
Blogger antidote said...

Salut!

Sei que o teu post é explicitamente sobre o pós 74.

(e estou a gostar da discussao que comecou á volta disto, e que nao vai ficar por aqui)

Mas achei (IMNSHO) que é importante enquadrar o contexto do activismo ou falta dele que a nossa geracao (a nossa geracao digo eu, a malta que nasceu nao primeira metade dos 70) viu passar como navio ao longe.

Geralmente quando se discutem as conquistas (ou ausencia delas, como alguns pessimistas gostam de apontar, atitude com que eu nao alinho) que oa activismo portugues conseguiu, LGBT ou nao, ha a comparacao automatica com o "estrangeiro", e automaticamente com Espanha. Ha que lembrar que se nao ha necessidade de os grandes partidos da resistencia emitirem e tomarem posicoes sobre topicos "sociais" (em oposicao a economicos e estrategicos) como as minorias e grupos excluidos, o feminismo, assuntos de genero em geral e LGBT, ha muito menos suporte logistico para qualquer tipo de activismo ou visibilidade.

A primeira (e unica) marcha Feminista, foi apupada e insultada. Nao é entao de admirar que o activismo tenha demorado LGBT tenha demorado a ter o seu aparecimento (meados-fins anos 80?) e crescimento natural até á situacao que temos hoje (bastante vitalisada e dinamica, IMHO).

09:28

 
Blogger Anabela Rocha said...

Mónica: sim, Cascais também é claro quanto a isso - as condições que faltavam não eram só para nós.
Mas, já quanto aos partidos de oposição, há uma grande falta de cultura que impede a reflexão e integração desses temas duma forma bastante mais explícita.
Quanto à discussão, já gerou um esclarecimento quanto a um ponto onde tinha dúvidas: a participação no 1º de Maio faz-se por iniciativa do GTH-PSR, a partir de 94, dizem.

13:12

 
Blogger Anabela Rocha said...

Uma parte do teu comentário aponta também para a necessidade de se cruzar a história do nosso movimento com outras histórias de movimento; a relação do feminismo com o lesbianismo está muito por fazer, para lá da invisibilidade lésbica no feminismo.

14:30

 
Blogger antidote said...

Ai esta um tema que ando com vontade de escrever (a seguir num blog perto de si).
O feminismo influencia o tipo de cultura numa cena lesbica num pais/cidade.

Discuti isso no outro dia em relacao a diferencas alemanha de leste/oeste e portugal/sul da europa versus norte da europa.

O centro da europa (do bloco nao comunista) viu sempre feminismos exacerbados (justificadissimos, falamos de sociedades onde a mulher é emancipada sim, mas é encorajada a ficar em casa a tomar conta dos filhos), e associada, cenas lesbicas separatistas (até recentemente) e fechadas em si propria. A alemanha de leste nao viu feminismo exacerbado porque nao precisou: as mulheres trabalhavam e eram levadas a serio (infelizmente a mudar aós a unificacao). O activismo lesbico reflecte isso: pouco separatismo, nada de distincao entre lesbicas "a serio" e bis, pouca transfobia etc… Assisti a discussoes interessantissimas acerca da inclusao de pessoas bi/trans em certas actividades anteriormente exclusivasem que a divisao primaria era por idades e depois entre leste e oeste.

15:08

 
Blogger paulo jorge said...

há um texto da ana cristina santos sobre ligaçao entre lesbianismo e feminismo num livro recem editado pela Dom Quixote com ogranização de Manuela Tavares e Lígia Amâncio

15:09

 
Blogger Anabela Rocha said...

Ó Paulo, e tu ou a Cris não queem rsumi-lo aqui um pouco? Ou sou a leitora de serviço?:)

15:15

 
Blogger paulo jorge said...

nao tenho o livro... vi o referido texto há algum tempo, acho que a Cris mo emprestou para um paper que fiz no mestrado...

15:20

 
Blogger paulo jorge said...

nao tenho o livro... vi o referido texto há algum tempo, acho que a Cris mo emprestou para um paper que fiz no mestrado...

15:21

 
Anonymous Susana said...

Várias correcções:
1. A sobrevivência financeira da Associação ILGA Portugal não depende já há muitos, muitos anos da CNLCS.
3. Quanto às Marchas e ao posicionamento da Associação ILGA Portugal relativamente ao SIDA, houve sempre vozes discordantes dentro da associação sobre esse posicionamento.
2. A Associação ILGA Portugal surgiu enquanto grupo embrionário em 1995 e foi legalizada em 1996 e não em 1997. É assim a primeira associação LGBT em Portugal.

Comentário breve:
Não li o artigo do Fernando Cascais, mas pelo descrito aqui, parece-me estar embuído de um completo gay centrismo e ter uma análise de excessiva ligação a partidos que não me parece ser real. A história lésbica do movimento, contrariamente ao que a Anabela tenta dar entender, não passa apenas pelo Clube Safo. Passa, e muito, pela Associação ILGA Portugal, que foi pioneira na movimentação no sentido de ligação ao movimento feminista e à luta pela despenalização do aborto. Talvez uma pequena tentativa de as pessoas informarem-se antes de escreveram sobre determinados assuntos resultasse numa aproximação mais real à história do movimento.

12:17

 
Anonymous Anónimo said...

nao sei se me podeis ajudar com o meu tema sou seropusitivo estive preso no ano de 99 e desaparesi numa percaria me fizeram uma declaracao de contunazes estou noutro pais nao posso ir ao medico e estou muito doente nao posso tirar o b.i.nem ninhum outro decumento sabeis adonde me posso dirijir perciso de ajuda urjente por favor

11:50

 

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