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9.02.2007

Guggenheim (Bilbao)

Nunca tinha visitado este museu e pensava que os seus créditos se deviam ao seu famoso edifício e a uma colecção permanete. Afinal, o que parece merecer uma visita muito regular são as suas exposições temporárias, pelo seu interesse em si e pelos excelentes audioguias.

Antes de comentar entusiasticamente as temporárias, saliento apenas a obra permanente de Jenny Holzer, uma narrativa vertical da (in)visibilidade da sida e dos seus afectos. (outra instalação vertical curiosa foi a de Julius Popp, na exposição "Made in Germany" - exposição anual relativa à arte contemporânea alemã, em Hannover - em que uma narrativa é criada por palavras escritas na água da chuva que cai).

Voltando às temporárias, duas figuras de grande relevo, o clássico Dürer e Anselm Kifer, contemporâneo.

Quanto a Dürer, para além da representatividade e quantidade das obras expostas, saliento alguns detalhes que desconhecia:

- o "Apocalipse", como sendo o primeiro livro visual do Ocidente, feito por sua livre iniciativa (e não por encomenda, como aconteceu posteriormente);

- o estudo detalhado da figura humana, de que resultou um magnífico Adão, em "Adão e Eva", e uma mais imperfeita, mas já não tão masculinizada Eva (resultado duma mais recente história da representação do nú feminino, de que ele não deixa de ser percurssor - já vos disse que as mulheres de Miguel Ângelo sempre me pareceram homens com peitos colados?);

- literalmente da ordem do fantástico, o Rinoceronte, excelente exemplo da circulação de uma fantasia enquanto realidade (tema a que já voltarei com Kiefer), pois que se tratou de uma representação que resultou das narrações de quem viu o rinoceronte (Dürer não o viu), trazido da Índia para Portugal como prenda dum embaixador ao rei; ainda hoje este rinoceronte circula, literalmente, enquanto imagem de marca de umas famosas palas de camião;

- as três magníficas representações de três topos clássicos, o sábio, o artista (de uma complexa e contraditória Nostalgia que ainda "mexe" dentro das nossas representações) e o guerreiro;

- por fim, a ironia histórica da adesão de Dürer, um percurssor da narrativa visual (e logo com os terrores do "Apocalipse") à sobriedade visual, que se pretendia pouco emotiva, do luteranismo. Esta ironia existencial faz de Dürer, ele mesmo, um topos da relação conflitual do ocidente europeu com as imagens (relação essa frequentemente revisitada; por ex., os magníficos quadros do... indiano... Atul Dodiya, na Documenta, autor a quem também regressarei).
Quanto a Anselm Kiefer, é o meu novo herói, pela forma como cruza reflexão filosófica com prática artística. Foi ele ainda que disse uma coisa curiosa: que nós somos tão determinados por aquilo que gostaríamos de ser, mas nunca seremos, como por aquilo que efectivamente vamos sendo. No meu caso, a prática artística sempre foi o eterno adiamento da minha vida, não deixando por isso de ser um constante apelo.
Mas voltando a Kiefer, as suas reflexões filosóficas resumem-se a um optimismo judaico, no sentido em que admira a humanidade pela sua capacidade trágico-cómica de inventar os mais mirabolantes e fantasiosos sentidos (narrativas científicas incluídas) na tentativa, sempre inglória uma vez que os vasos quebrados da Cabala nunca se reconstituirão, de compreender o mundo.

As formas como ilustra esta simultaneamente humilde e orgulhosa sabedoria concentram-se em representar algumas destas criacções de sentidos mais fantásticas, como por ex. a identificação de constelações no céu, a sabedoria das plantas, a alquimia, a regularidade matemática da história, etc, etc. existe ainda espaço para temas como o da invisibilidade histórica das mulheres (veja-se a série das rainhas de França) e também o significado do Livro da Natureza.
Os materiais e técnicas escolhidos não podiam estar mais de acordo com o que se pretende representar: metais alquímicos (chumbo e cobre), barro e plantas (nomeadamente girassóis). Quanto às técnicas, é de salientar o tempo que já vem literalmente incorporado nas obras, uma vez que muitos dos elemntos utilizados necessitam de meses ou anos para adquirirem as características apresentadas (não se trata de expor uma obra feita ao tempo, mas sim de apresentar uma obra já no tempo). De salientar ainda, nas técnicas, a exposição prévia dos elemtos ao clima, nomeadamente à chuva, assim como um trabalho que aproveita a inscrição gráfica dos ácidos sobre o metal.
Outro aspecto, que enfatiza o lado poético, a um tempo trágico e cómico dos seus trabalhos, é a utilização de excertos de poesia e de teorias científicas fantásticas, revisitando, também ele, a tal relação da imagem com a escrita.
Observação final: 80% dos visitantes do museu faziam-se acompanhar sistematicamente do audioguia, o que salienta o peso que uma leitura informada tem sobre a experiência estética hoje, aspecto a que voltarei muitas vezes ainda; no entanto, duvido que as mesmas pessoas que fazem esta utilização demorada reconheçam conscientemente o significado cultural deste aspecto.

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