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9.22.2007

O eixo do mal é heterrorsexual

Com edição em 2005 pelo GtQ (Grupo de Trabalho Queer) de Madrid, e publicado com uma licença Creative Commons (download pdf aqui - obrigada Laetitia), “El eje del mal es heterosexual” é uma pérola de activismo radical queer.
O livro traduz alguns artigos que se tornaram clássicos, faz a história dos movimentos queer em Espanha, e apresenta ainda contribuições teóricas interessantes de autores espanhóis.

O artigo introdutório assinado pelo grupo frisa o carácter terrorista do heterrorsexismo, enquanto regime que aterroriza quem não partilhe das suas normas. Salienta a estratégia hiperidentitária de gays leather e ursos e de lésbicas femme. Refere que a vertigem social causada pela pessoa de género instável provoca repulsa mas também desejo. Segue Butler na convicção de que para muitos a revolução é simplesmente sobreviver debaixo do heterrorsexismo. Deixa bem claro que o queer não tem nem sujeito político nem agenda a priori.

Gracia Barbadillo analisa os trabalhos do LSD (altamente recomendável, nomeadamente a revista Non Grata) e da Radical Gai, grupos queer surgidos na primeira metade dos anos 90, com o objectivo de propblematizar os espaços políticos e de ócio heterosexuais locais (nomeadamente no bairro Lavapiés) em coligação com grupos que também questionavam o status quo, numa linha anticapitalista e antimilitarista. As suas estratégias hiperidentitárias eram pontuais de forma a não serem apropriáveis.

Sejo Carrascosa e Fefa Vila Núñez analisam o material teórico e gráfico que LSD e Radical Gai produziram e que combatia a homofobia, o racismo, o sexismo e o classismo da campanha estatal de luta contra a sida.

Segue-se o clássico de B. Smith “Homophobia, why bring it up?” (1983).

Encarna Rodriguez reflecte sobre as relações entre as vivências queer e a “transformigração” (mudanças nas políticas e vivências de emigração).

A que se segue o clássico de Cheryl Chase, “Hermaphrodites with Attittude: Mapping the Emergence of Intersex Political Activism”, onde faz exactamente isso e marca os seguintes pontos: o bebé intersexo é um problema psicosocial, para os outros, problema esse que é resolvido cirurgicamente (e não psicosocialmente); a estranheza de 90% das operações levarem à femenização da criança, só porque é mais fácil cirurgicamente destruir tecidos que construir; a dissimulação da violência das cliteroctomias praticadas, acusando apenas as africanas disso; que só se deveria operar com razões médicas; defendia (ainda) que os bebés devem ser educados de acordo com um género mais provável de escolha futura; aponta a ameaça que a voz intersexo é para uma especialidade médico-cirúrgica de grande prestígio; lamenta a recusa feminista em incluir mulheres intersexo; refere os contributos de Fausto-Sterling, S. Kessler e A Druger.

O artigo de Raphael Cárter é uma adaptação irónica do Merck Manual.

O artigo de Moisès Martinez é dos mais interessantes, uma vez que reflecte sobre as pressões heterosexistas sobre os F2M, nomeadamente quanto à genitocracia reinante, no caso falocracia, e acaba concluindo que a mudança de sexo acontece na percepção social e não no interior da pessoa, sendo que pode ocorrer uma “falosinplastia”, ou seja, “a plasticidade da pele depende dos valores e significados que lhe dermos”. Quanto às pressões heterosexistas, salienta-as a três níveis: quando os juízes exigem a faloplastia (em que o pénis é visivelmente grande mas pouco funcional e sensível, uma vez que é um músculo sempre erecto) e não a matadoioplastia (em que o anterior clítoris cresce cerca de 5 cm e é funcional e sensível); a pressão social para que a masculinidade seja significada por um pénis grande; as pressões psiquiátricas para uma masculinidade estandardizada (sem hobbies femininos, por ex.), para a heterosexualidade, e para a recusa dos seus genitais (não concebendo como desejável a masturbação). O autor salienta também o papel altamente subversivo das hormonas, nomeadamente da testosterona, uma vez que faz muito mais pela alteração da percepção social e pela modificação corporal do que a cirurgia.

O artigo de Juana Canto tem a particularidade de ser um artigo duma autora trans que refere que @s trans não devem recear perder a sua “legitimidade” (é o termo que emprega) caso a sociedade se desenvolva no sentido de não diferenciar o masculino e o feminino. No entanto, quase pede desculpa por serem também vítimas do binarismo de género e por, apesar de reconhecerem a construção social do género, sentirem tanto uma identidade de género como qualquer outra pessoa desta mesma sociedade heterosexista.

O artigo de Javier Saéz reflecte sobre duas estratégias hipermasculinas ou do excesso: os leather e o seu excesso cultural de códigos e sinais masculinos, nomeadamente com uma nova cultura e tecnologia corporal dos gay leather SM; os ursos e o seu excesso de sinais “naturais” de masculinidade, que acaba por produzir também uma nova cultura gay, menos juvenilocentrada e concebendo outro tipo de relações. Ambos acabariam por demonstrar a fragilidade da masculinidade: os gays leather ao descentrarem-se da falocracia e os ursos ao buscarem uma natureza que é sempre performativa e que, portanto, não existe essencialmente. Em consequência, a ambos considera como drag kings. Acaba chamando a atenção para a “plumofobia” (termo que os espanhóis usam para referir uma espécie de bichofobia dos gays), a misogenia e a lesbofobia que estas culturas podem albergar.

Susanne Mobacker apresenta um pequeno artigo sobre a facilidade de desdramatizar a separação homens/mulheres nas casas de banho públicas, nomeadamente não fazendo essa separação ou fazendo outras.

Urika Dahl assina outro dos artigos muito interessantes ao salientar o potencial subversivo da hiperfeminilidade lésbica femme femme-inista, criticando simultaneamente os padrões classistas que levam a atribuir uma classe baixa, ou uma etnia minoritária, ou uma profissão duvidosa, a mulheres que exibam muito os seus atributos femininos (referindo até um possível ódio do feminismo burguês à feminilidade, que não celebraria o poder da feminilidade). Como consequência expectável refere que se identifica mais com drag queens e com trans M2F, do que com mulheres heterosexuais, na celebração irónica da feminilidade.
Mais intelectualmente honesto é o artigo de Javier Saéz, uma vez que assume frontalmente os riscos de homofobia interiorizada que podem existir quando se advoga uma hiperidentidade de género (a autora anterior refere a sua adolescência no armário numa comunidade conservadora mas não reflecte sobre as consequências disso na sua escolha da hiperfeminilidade).

Por fim Javier Iglésias apresenta uma série de entrevistas onde se sente as tensões existentes entre movimentos lésbicos e lésbicos radicais, e movimentos feministas espanhóis. Provavelmente instrutivo para o que se viu e verá cá.

Excelentes e fundamentais são também as imagens do livro:
Es-cultura lesbiana
DNI
Grupo de transexuais masculinos de Barcelona
Vídeos trans (não disponíveis no livro mas que acabei por encontar graças a ele)

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