Blog duma gaja... bem... esquisita, estranha, tarada:) Enfim... queer!

11.30.2005

Sacerdotes e Igreja Católica

Gostava de comentar o seguinte sobre o novo documento da Igreja Católica que tenta afastar os homossexuais dos seminários:
1) não é novo o patriarcado espiritual que o contamina: a ordenação só de homens; a espiritualidade tendo como única orientador possível uma paternidade espiritual
2) penso que é novo o argumento de que o homossexual não pode ser sacerdote por isso o impedir de ter uma relação correcta com os homens e com as mulheres; penso que aqui a Igreja Católica projecta a sua própria misogenia (bem visível no patriarcado espiritual que defende) sobre o homossexual masculino ao lançar sobre ele a suspeita de que não será capaz de ter uma relação correcta com as mulheres (por as negligenciar) e com os homens (por os desejar).
3) a definição dos actos homossexuais como pecados graves e das tendências homossexuais como objectivamente desordenadas (traduza-se fora da ordem natural, objectiva, das coisas, nela incluída a natureza humana; ordem que não só existe como natural, essencial, imutável e definitiva, como foi criada por Deus) também não é nova
4) a agudeza da prova sacrificial que consiste em resistir à tendência homossexual, é relativamente nova: "Essas pessoas devem ser acolhidas com respeito e delicadeza; lidando com essas pessoas, evitar-se-á todo e qualquer ferrete de discriminação injusta. Essas pessoas são chamadas a fazerem a vontade de Deus na sua vida delas e a unirem ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que possam encontrar." Ou seja, essa prova é até tornada familiar ao sacrifício de Jesus na Cruz! E o cuidado posto na questão, também relativamente novo: "(...) embora respeitando profundamente as pessoas em questão (...)", indicam que se está a falar aqui para gente muito especial, gente de grande sacrifício, de grande entrega à Igreja, nada mais nada menos do que todos os já ordenados sacerdotes que, diariamente, lutam com as suas "tendências" homossexuais, e que são, como se sabe, muitos e muitos. Ao mesmo tempo, continua-se quase a heroicizar a dificuldade de resistir a esta tentação, para que os jovens homossexuais que pensem em ser seminaristas se sintam lá mais heróis do que cá fora, e continuem a ver, erradamente, na Igreja, que assim engrossa as "vocações", um porto de abrigo....

11.29.2005

Deveres patrióticos:)

Mais um documento sobre as estatísticas demográficas do INE e lá se levantam vozes histéricas a respeito do decréscimo da família tradicional e da natalidade (escrevo-as assim mas não as vejo como causa-efeito, atenção). Bem, vá lá, vá lá, já se vai elogiando a emancipação da mulher como factor de decréscimo da família tradicional, mas já não se considera esse argumento suficiente para a diminuição da natalidade.
Quanto a esta questão ainda há quem ache que, além de subsídios de incentivo, as pessoas deviam sim, interiorizar isso como um dever, o dever de substituir as gerações de portugueses por portugueses, um dever patriótico, portanto. Essas mesmas pessoas, como a psiquiatra Mariana Neto, esquecem-se de referir coisas tão importantes como o aumento das estruturas de apoio à primeira infância, nomeadamente nas próprias empresas, e a divisão dos custos de carreira entre homens e mulheres.
Por outro lado, é falso que o país não esteja a crescer demograficamente, porque está, devido aos imigrantes. Então, se estes são jovens e têm família com crianças, porque não incentivar mais o reagrupamento familiar. Ah, não são portugueses de gema. Que chato, não é?

SOS Doentes mentais

Como cidadã das margens, tendo já experienciado períodos de doença mental (elas não matam, mas moiem), sou muito sensível às necessidades de pessoas tão sofredoras como os doentes mentais, e das suas famílias.
As notícias que correm do fecho, precipitado, de um dos hospitais psiquiátricos de Lisboa são preocupantes. É claro que aqui, como em todas as situações de possível re-inserção social de cidadãos nas margens da sociedade, sou a favor da des-institucionalização. Mas cuidadosamente preparada e tendo sido imensamente reforçados os serviços e redes sociais de apoio, formais e informais. Mas, mesmo em países onde isso foi feito, consta que em 10 anos na Austrália e não de um dia para o outro, aumentaram 80% os internamentos psiquiátricos nos hospitais gerais - também para isso é preciso criar estruturas e recursos.
Por fim, mandar para a rua centenas de pessoas das quais as famílias têm dificuldade em cuidar, e candidatas ao abandono, a uma vida de sem-abrigo, é totalmente desumano e apenas acontece porque essas pessoas não votam e, já no presente, têm poucas pessoas que votem a pensar nelas. Uma imensa vergonha, é o que é.

Assembleia de Sócios SPGL

Ontem fui a mais uma Assembleia de Sócios do SPGL. Se eu disser que a Direcção do sindicato é constituída por cerca de 70 pessoas (poucochinhas, não é?:) e que lá estavam cerca de 100, penso que fica claro a dificuldade em que existam condições objectivas para que estas assembleias não sejam mais do que uma legitimação da política frouxa da Direcção. Política frouxa porquê? Porque, no meio de tantos ataques e medidas absurdas, e preparando-se a revisão do Estatuto com a integração de novos princípios que debilitam os vínculos laborais e impedem a progressão remunerativa, a Direcção propõe que, nos próximos dois meses se façam... reuniões internas. Leram bem: reuniões internas de discussão. Ora...bolas! (já estão a ver de que bolas estou a falar...)
Acho que me vou informar melhor sobre o Sindep - isto já não é um sindicato, nem tem funcionamento democrático...

11.28.2005

Aperta e de que maneira!

O cerco à volta dos softwares peer-to-peer aperta e de que maneira! Desta vez é o Kazaa que, na Austrália , tem de incluir um software que impede o download de uma série de ficheiros protegidos por direitos de autor...

Arte Lisboa

No meio de muito barrete, algumas coisas especiais, e acima de tudo demasiadas coisas, eis uma listinha que fiz de trabalhos que ficariam bem numa exposição queer:
- os soutiens de Leda Cruz; a foto do abraço das meninas de Andrea Inocêncio; a foto/narrativa bi de Sam Samore; o poder dá tesão de Fernando Aguiar; os novos Pedro Proença, painting underlines the physicality of our bodies; as fotos maplethorpianas de Cecília Paredes; a boneca de Barbara Lessing; e as bolas do Isaque Pinheiro, se bem que com alguma desilusão por serem as mesmas do ano passado.
Por outro lado, não sei como está a correr a feira do ponto de vista da indústria, mas fala-se em fazer dela uma feira de arte emergente, ou seja, uma feira de arte baratinha:) Mas, antes isso, de que aliás o nosso país precisa para projectar de alguma forma os seus jovens artistas, do que não ter estratégia específica nenhuma.

11.26.2005

É Natal, é Natal!


Dits et écrits, vol. II e III (de 70 a 75 e 76 a 79), Gallimard
(Obsv.: o Cunningham já cá canta!)

Assembleia de Sócios SPGL

Apelo a todos os colegas sindicalizados no SPGL para que apareçam na Assembleia de Sócios segunda-feira, principalmente se desejam uma postura mais assertiva e reivindicativa para este sindicato e não se identificam com a linha actual. Isto porque contribui para algumas moções e propostas importantes, que lá leva o núcleo sindical da minha escola, que com um pouco mais de apoio podem ser aprovadas e postas em prática.

Colóquio Foucault II

Manuela Ivone Cunha defendeu a ideia duma antropologia pós-moderna, creio que no sentido de não disciplinar (chamo a atenção de quem lê que estou a falar de alguém que nunca li). Nesse sentido afirmou que a prisão se tornou o centro duma sociedade da estratificação social em que a gestão penal coincide com uma gestão social da pobreza, populações pobres estas que não há nenhum desejo em conhecer, mas apenas manter à distância através duma gestão dos riscos sociais (entenda-se possível alteração do status quo, penso) que representam. Penso que o termo que empregou para esta visão foi actuarial (mas posso ter ouvido mal).
Com esta visão pós-moderna afirmou combinar muito bem (para os poderes) uma visão pré-moderna, que apelou de populismo penal, em que toda a gestão penal se centra numa gestão do medo experienciado pelas populações dominantes.
Não sei se o refere no seu doutoramento, mas é possível, mas este privilégio de não conhecer tem muito a ver com o privilégio de que nos falou Sedgwick, que os heteronormativos teriam em relação aos não heteronormativos; com as mesmas consequências de invisibilidade e muito provavelmente outras.

Ainda no primeiro dia Philipe Artiéres (secretário do centro de documentação Foucault) apresentou uma interessante comunicação em que comparou as estratégias operativas dos amotinados prisionais em França nos anos 70 com as estratégias dos actuais movimentos contestatários, salientando a sua diferença e o facto destes últimos não utilizarem formas simbólicas de intervenção que permitiriam enquadrá-los melhor na história das resistências francesas – o que tem impedido também a sua apropriação pelos aparelhos partidários.
Esta comunicação foi em substituição de Eribon.
À tarde apresentou outra, que se centrou na forma como Foucault comentou e re-escreveu um debate que teve com alguns historiadores do seu tempo, também nos 70, salientando a forma como retirou algumas problemáticas/autores e como tentou ocultar a sua proximidade a outros.
Curioso o fetichismo em relação às imagens dos próprios escritos de Foucault – parece que manuscritos não sobram muitos, e muito menos rasurados; aparentemente Foucault gostava dos textos limpinhos e passava-os a limpo quando rasurados – o que levou Philipe a referir especificamente o trabalho da escrita.

Esta questão da territorialização interpretativa de Foucault foi aliás das mais curiosas em muitas apresentações. Além da própria gestão que dela fez Foucault, tivemos Cascais a aproximá-lo de Heidegger, Pellejero a afastá-lo de Deleuze (pelo menos durante um período em especial), Cavalcanti Maia a aproximá-lo a Habermas (heresia, heresia:) - bem, a dizer que Habermas tomou Foucault como interlocutor mas o contrário não terá acontecido) e Negri a Marx. Realmente, não é importante aquilo que um autor disse mas sim aquilo que nos permite dizer...

Ainda no primeiro dia José Subtil fez uma aproximação entre a reconstrução pós-terramoto 1755 (muito curioso ver como este assunto invadiu as agendas; vamos a ver se a exposição da CML consegue agarrar todas as leituras possíveis) e a gestão das populações, biopolítica, de que fala Foucault em Vigiar e Punir.

As restantes pessoas do primeiro dia não as ouvi.

O segundo dia arrancou com as inquietações de António Barbosa e o apelo para que os filósofos contribuam para as perspectivas holísticas da psiquiatria sobre doenças psicosomáticas, de que o principal contributo teria sido de Weizek (posso ter ouvido mal).
Para além de alguns exemplos sobre doenças psiquiátricas recentes provocadas por explorações sociais várias, nomeadamente no mundo do trabalho, a impressão que fica é que, pelo menos na especialização em psiquiatria (para já não dizer no curso de medicina) e em psicologia e formação psicanalítica, era urgente existirem disciplinas de filosofia e política da medicina, pelo menos para permitir a estes profissionais estruturarem algumas referências de forma sistemática.

Isto levou-me a reflectir de novo sobre algo muito polémico, que é a própria preparação dos alunos de filosofia portugueses em filosofia contemporânea (e não só). Muitos colegas se queixam de terem tido professores que se centravam todo o ano numa só obra – nem sequer num só autor... Ora, o nível de licenciatura é, e é cada vez mais se considerarmos a ausência da história da filosofia no secundário e a proliferação dos mestrandos e mestrados, um nível de estruturação de referências, com algumas leituras mais críticas, mas nunca ao ponto desse trabalho de leitura impedir um trabalho de estruturação das referências mais básicas. Muitos professores universitários, egoisticamente e sem qualquer sentido pedagógico, inundam os alunos de trabalho sobre a obra ou autores em que são ou pretendem vir a ser especialistas, sem nenhuma preocupação em dar (e não tenho medo desta palavra, dar, feito, a papinha toda à moda do professor) aos alunos as tais referências. Este trabalho pedagógico de sistematização de referências, acompanhado da leitura de um ou outro capítulo mais significativo dos conceitos dos autores, dá algumas bases de leitura e, mais importante, de escrita, aos filósofos principiantes – que logo descobrirão se a leitura do professor era ou não enviesada e em que sentido. Esse sentido pedagógico tenho-o a agradecer à Opus Dei Maria José Cantista, ao Bispo Januário Torgal, ao contestatário Costa Macedo e ao simpático Adélio Melo – que foram aqueles que de facto se preocuparam em transmitir um quadro geral da época ou problema a que a sua cadeira dizia respeito dentro duma certa contemporaneidade. O mesmo aconteceu com os professores de Filosofia Antiga e de Moderna, mas não com tanto brilhantismo. E, para quem não conhece estes nomes, digo, bibó Porto! (e, antes que receba mails a dizer que estou a ser injusta, a esquecer este ou aquele, saliento que me estou a referir apenas aqueles que me ensinaram filosofia pura)

Cavalcanti Maia foi uma lição. Este brasileiro professor de Direito e de Filosofia Contemporânea afirmou desconhecer algumas obras, passagens, autores, mas também não teve pejo em afirmar que tinha lido todo o Manuel Maria Carrilho, Rorty e, crime dos crimes:), salientou um livro chamado “Recasting the Habermas-Foucault debate.” Além disso adormeceu frequentemente em muitas comunicações que eu diria também (porque outros o salientaram e como foram policiados...) não souberam fazer a ponte entre uma leitura meramente hermenêutica e um jornalismo filosófico, um qualquer pronunciamento sobre a actualidade. Por outro lado mostrou como se pode ler filósofos portugueses sem preocupações de capelinhas, e apelou a uma leitura idêntica dos brasileiros pelos portugueses, a um maior diálogo, pois que se afirmou muito sozinho nestas leituras no Brasil (não só dos portugueses como da linha deleuziana que vai referir.
Na profusão de referências que apresentou, numa comunicação que se focou, mais uma vez, na tentativa de delimitar territórios interpretativos, parentescos políticos, para Foucault, saliento a seguinte divisão que fez, que disse corresponder a duas actualizações diferentes de leituras sobre o bio poder: aquilo a que chamou a constelação deleuziana (Deleuze-Guattari, Negri-Hardt e Agamben) e uma outra (e aqui vou meter a pata na poça porque nunca ouvi falar) um tal Walter Dik e um Poter (não devo ter percebido nem o nome de um, nem de outro:).

O espanhol Pellejero foi outra lição, no sentido em que apresentou uma comunicação bastante rica e no sentido em que pareceu ser um homem relativamente jovem que vai apresentar doutoramento muito brevemente (circunstância que só aconteceu com um outro português, dos que ouvi). Pellejero vem defender a tese de que teria havido um desacordo silencioso durante 7 anos entre Deleuze e Foucault, porque Foucault não teria lugar, em Vigiar e Punir, para modos de subjectivação que dobrassem o poder, para formas de inovação e resistência, para o desejo deleuziano (desejo este que, como bem salientou também, não é prazer – e estão por tirar todas as consequências desta visão nos estudos queer -, nem carência). Definitivamente uma tese de doutoramento a procurar e a ler.

Quanto a Patrícia San Payo não percebi nada – não pesco nada de Blanchot. Anotei uma frase: parler ce n’est pas voir, que ela referiu como a irredutibilidade das visibilidades (todos os não-ditos, instituições, dispositivos, etc) aos enunciados.

Quanto a Nabais, penso que só é honesto pegar num texto de início de carreira de um filósofo, quando se sabe que ele mudou de ideias sobre aqueles temas quando, após se apresentar as ideias que nos pareceram interessantes no texto, se explica também como é que o filósofo se afastou delas – o que não significa que nós tenhamos de nos afastar.
Por outro lado, foi constrangedor ver como foi das comunicações mais assistidas, penso que por ser Nabais – constrangedor porque, por muito simpático que seja Nabais, não é aquela a filosofia a discursar daquela maneira que me interessa – disseram-me ser aquela maneira muito ao modo da Faculdade de Filosofia da Clássica...

A par de Nabais esteve José Bártolo, infelizmente o único relativamente jovem filósofo português que apareceu como estando prestes a fazer doutoramento nestes temas. O seu trabalho também me pareceu sério, se bem que há uma centralidade na sua leitura que não me parece nada foucaultdiana – nesse sentido, a serialidade das imagens e dos espelhos de Pellejero parecem-me uma leitura muito mais acertada.

Foi na ocasião desta mesa Nabais/Bártolo que sucedeu o episódio mais desagradável do colóquio (das mesas a que tive oportunidade de assistir). E não foi um mero episódio, um mero desacato – é sintomático de muita coisa.
Houve alguém na plateia (aparentemente conhecido de algumas pessoas pelas suas intervenções algo marginais – e com isto não as estou a desqualificar mas sim a localizá-las – pela forma como foi violentamente interpelado) que sugeriu que as intervenções fossem mais explicativas do próprio Foucault e que, se possível, se fizessem acompanhar de desenhos ou esquemas. Ainda nem tinha acabado de falar já havia alguém (que não a pessoa que geria as intervenções) a mandá-lo calar; e quando tentou retomar de novo a palavra, de novo uma simples espectadora o mandou calar. A resposta da pessoa, aparentemente um doutor em filosofia, que geria as intervenções foi irónica, paternalista e prepotente.
Logo a seguir outra pessoa, que já tinha intervindo nas margens anteriormente também, teve também direito à palavra com algumas reticências – neste caso não lhe foi retirada a palavra e não foi mandado calar pela plateia porque usou de muitas referências a livros da história da medicina portuguesa... Apesar de ter começado por desferir um forte ataque à falta de jornalismo filosófico do debate.
A mesma pessoa que tinha interrompido a primeira intervenção tomou a palavra para dizer que ali se falava a partir de Foucault e que quem tinha dúvidas devia ir para casa e aproveitar o pretexto para o ler. Esta foi basicamente também a tese que acabou por ser expressa por quem geria as intervenções e pelo próprio Nabais. Vá lá, vá lá, Bártolo aceitou como interlocutor o segundo interveniente.

Mas consideremos: um debate com o subtítutlo Lei, Segurança, Disciplina, nos dias de hoje, a decorrer num instituto de línguas e não numa faculdade, com entrada gratuita e sem inscrições, não deve de facto alertar os comunicadores para a diversidade do público esperado, se realmente pretende dirigir-se a esta agenda contemporânea? É que não estávamos efectivamente numa Faculdade de Filosofia, num tradicional colóquio académico pago, com intervenções exclusivamente filosóficas, etc, etc... Eu diria que é por estas e por outras que a filosofia portuguesa podia estar em muitas agendas e instituições e não está; eu diria que é por esta e por outras que não há alunos para frequentar os cursos de Filosofia; eu diria que se os nossos académicos e intelectuais continuam sem intervir filosoficamente nas agendas actuais, a filosofia em Portugal caminha para a extinção – coisa que não preocupa, é claro, muitos daqueles que já têm o seu tacho académico garantido.

E, por fim, só assisti mais a Negri, que nunca li (pronto, pronto, vou buscar o chicote no final do post e vou auto-vergastar-me veementemente:). Daí terem de me dar um desconto no que ouvi.
Negri começa por chamar a atenção que Vigiar e Punir foi, para o próprio Foucault, uma verdadeira experiência filosófica, no sentido em que saiu dele modificado – ou seja, no meio de tanto aperto/dispositivo o livro é um novo momento de subjectivação para o seu autor, uma nova expressão da potência da vida, que ultrapassa o próprio biopoder. Esta potência da vida é muito parecida com a força de trabalho de Marx.
Esta potência da vida inventa dentro e fora do biopoder, e não em oposição a ele, uma vez que toda a oposição ao poder o reproduz. Não se trata duma libertação do poder mas de práticas de liberdade que estão simultaneamente dentro e fora do poder. Estas formas de resistência chamam-se multitude.
Há aqui um sentido colectivo da resistência que me interessa, alicerçado num vitalismo do qual desconfio um pouco. Terei de ler mais.
P.S.- Quanto a Alicia Keys, esqueçam - muito soft. Lá fui alternando com Kate Bush, nem sempre tão inventiva quanto poderia.

11.24.2005

É Natal, é Natal!



Sugestões para quem for muito amigo:)

Cyberarts 2005 International Compen, Editora Hatje Cantz

Colóquio Foucault

Comunicação de Fernando Cascais sobre o dispositivo: o dispositivo, num mesmo movimento, produz o sujeito como objecto (de um dado conhecimento) e como sujeito (duma dada relação consigo próprio). O dispositivo pan-óptico (inicialmente estrutura arquitectónica proposta por J. Bentham, para reformar as prisões, que consistia numa torre de vigia em redor da qual estavam as celas dos prisioneiros, que eram castigados sempre que cometiam infrações, chegando ao ponto de se auto-vigiarem para não as cometer e não serem punidos) ter-se-ia alargado a toda a sociedade, criando a sociedade disciplinar e normalizadora. A punição, ou o exercício do poder, não consiste na repressão de comportamentos (hipótese repressiva) mas sim na produção de comportamentos.
A aplicação deste conceito à sexualidade leva ao conceito de ciência sexualis (a ciência que transforma a relação a si do sujeito numa relação centrada no ter e ser uma sexualidade), a biomedicalização da sexualidade.
Mas a contribuição original da comunicação de Cascais é a proposta da inspiração de Foucault no conceito de técnica de Heidegger, nomeadamente da técnica como Gestell, ou seja a essência da técnica moderna como perigosa na forma como altera a experiência da essência humana, do modo de vida especificamente humano (a relação do humano a si próprio), ao ver os seres humanos como meio, recurso, matéria-prima de produção, de objectos e de sentidos.
Vera Porto Carrero - centrou-se na distinção arquivo (mundo das relações de força já determinadas)/ invenção (mundo das relações vivas, sempre em possível negociação, mundo de riscos). Salientando que continua a fazer sentido pensar as formas de resistência como invenção doutras relações sociais, doutros modos de humanar, de re-fundar socialmente o homem. Mas, para isso, o Outro tem que ter um qualquer poder, para negociar - a relação de poder (em que o Outro é reconhecido e mantido e não assimilado como sujeito-identidade) é que permite a invenção, a resistência, e é o contrário da relação de violência (que se caracteriza pela ausência total de poder do Outro).
Merece especial relevo a comunicação de Manuela Ivone Cunha. Talvez mais logo tenha tempo de vos dar umas ideias. Fui!

Aeroporto tem de ser mais longe, sim!

Carmona quer fazer um referendo sobre o afastamento do aeroporto.
Não sei se sabem mas a proximidade do aeroporto da cidade é um dos factores que contribui para que Lisboa seja uma das cidades europeias que mais congressos internacionais recebe. Ora, apesar disso tudo ser muito louvável, privilegie-se a qualidade de vida de quem cá mora permanentemente e não quem cá vem uns dias, curtir o nosso sol e discutir questões internacionais muito importantes, que mais valia serem cá discutidas devido ao dinamismo das nossas empresas e universidades do que às condições turísticas da cidade...
Porque é que Lisboa há-de ser a única capital europeia terceiro-mundista em que os seus habitantes levam com um aeroporto no meio da cidade?

Ah, dia em cheio!

Enquanto uns fazem acções directas, outros têm um dia de relax:) Ok, relax à minha medida: colóquio sobre Foucault (onde saliento a intervenção, claríssima, altamente pedagógica, do Cascais), visita ao CAM (fantástica Piéta de João Vilhena - tãããooo queer; onda s/m muito gira do Chafes, a continuar a acompanhar; e não me lembro de quem são as fotos do homem gordito, desculpem - tudo coisinhas que ficariam a matar numa exposiçãozinha queer), e ainda deu para ir ao ginásio. Com Alicia Keys à mistura (enfim, comercial, eu sei, o Diary; dizem que o Unplugged é melhor; vou ouvi-lo hoje). E ainda consegui escrever um textinho para a apresentação do livro da Angela, que me andava a preocupar. Nada como um cruzamento de inspirações!
Relax, day 2, portanto.

O aplauso do ano

Para esta acção das Panteras - porra, é que tenho andado a pensar o que poderia fazer na minha escola para que isso não se passasse assim (que tenho a certeza que se passaria, infelizmente). E estas notícias são exactamente o pretexto que preciso para levar mais adiante o assunto. Brigada, pepole!

11.23.2005

Vão ao cinema, porra!

Andam a encerrar boas salas de cinema em Portugal (Alcochete e Santarém). Paulo Branco desculpa-se, em Alcochete, com o suposto facto do outlet estar semi-aberto, o que é mentira. Simplesmente não há público, mesmo quando o outlet está cheio. E mesmo quando há produtores, como Paulo Branco, que diversificam a oferta.
Eu trabalho na margem sul. Sei que as famílias lá não vão nem uma vez por mês ao cinema. É caro. Não têm o hábito. Tenho mesmo alunos que me dizem que não gostam de cinema!!!!
Por aqueles lados é preciso um esforço de criação de públicos. Senão veja-se o badalado complexo de salas do Arrábida Shopping, em Gaia, sempre a bater recordes de bilheteira...

Colóquio Foucault

Em tempos de demasiada bioética temos finalmente a possibilidade de participar num colóquio onde os discursos se centrarão à volta da biopolítica.
Com uma mãozinha do Fernando Cascais, decorre hoje e até sexta um excelente colóquio, no Franco-Portugais, ainda por cima tendo Foucault como pretexto.
Ai, tanto suminho!:)

Alerta Nip Tuck

Para aqueles tão distraídos como eu alerto para o facto de já existirem disponíveis no emule 8 (!) episódios da 3ª série do Nip Tuck.

O lado da minha mãe

Não pensem que só gosto de arte não popular, ou não decorativa. Tenho a dizer que adoro cerâmica (já foram ao re-aberto museu Bordalo?), vidro (doméstico e vitral) e azulejaria (adoro o nosso museu do azulejo). E as secções de tecidos e a de joalharia do Victoria and Albert são dos meus cantos preferidos do mundo.
Há uma coisa que a minha mãe domina particularmente e da qual nada percebo, apesar de adorar vê-las com ela: as flores.

Anteciparte

Fui dar uma espreitadela. Gostei da Eva Alves, principalmente das peças domésticas, de cozinha, forradas meticulosamente a veludo vermelho. Muito queer.
Mas também dos abraçadores:) de Susana Pires e das montagens de Sofia Leitão. Gostei muito de ver muitas artistas.
Estou ansiosa pela ArteLisboa – é como alguns bons álbuns de música: há sempre surpresas muito agradáveis. Começa já quinta.

Diversidade e (in)disciplina

Confesso: aborreço-me terrivelmente a fazer sempre o mesmo. Adoro fazer vinte coisas ao mesmo tempo – provavelmente resultam em dez realmente feitas mas não interessa, adoro variar. Adoro ter tempo para variar. Adoro não ganhar nem perder dinheiro com isso. Adoro experimentar.
Entre leituras, escrita, colóquios, música, cinema, arte, trabalho associativo, trabalho sindical, experiências artísticas, aulas, tenho o privilégio de poder gozar do tempo lento de construção das coisas. Um enorme luxo.

Educação gráfica

A tradicional educação sentimental sempre foi política.
Existem hoje outras educações, igualmente desprezadas pela alta cultura, que são tão fundamentalmente políticas quanto o era a educação sentimental: refiro-me à educação gráfica.
Com isto quero dizer competências para realizar trabalho e crítica gráfica. Com isto quero dizer que vou aprender Photoshop. Com isto quero dizer que hoje, quem não é capaz de re-construir de forma crítica uma imagem dominante, é iliterado gráfico, é pior do que analfabeto. A iliteracia visual constitui hoje a pior iliteracia porque diz respeito aos dispositivos que mais massivamente nos dominam: as imagens.

Sugestão musical

Muito aclamado e elogiado, e de facto cheio de surpresas, Bor-land. Com o extra de ser uma antologia de uma editora independente portuguesa.

Equívocos

Assisti recentemente a várias curtas de técnicas diferentes: os vídeos videoarte do Festival Número e alguns dos vencedores do Cinanima.
Penso que a videoarte ainda está muitas vezes na idade do equívoco técnico: confunde-se uma mestria das técnicas próprias daquele suporte com uma visão técnica da comunicação. Mesmo quando se faz poesia multimedia penso que muito dificilmente uma imagem resultante apenas do virtuosismo técnico vale só por si. Quero com isto dizer que o experimentalismo técnico tem os seus limites e que me aborreci com alguns trabalhos.
No entanto, foi refrescante ver a reconstrução lésbica duma cena hitchcokhiana (a mesma personagem, filmada alternadamente em perfis opostos, seduz-se a si própria).
E um outro trabalho de auto-retrato de contornos sempre instáveis também muito interessante.
Já o cinema de animação ultrapassou claramente a fase do deslumbramento face ao domínio técnico (bem, à excepção de algumas americanices comerciais, infelizmente muito usadas em cinema) e consegue apresentar peças únicas, obras de arte completas. O Cinanima é uma pérola das minhas terras. Obrigada.

11.19.2005

Criação de chip biológico

Foi criado o primeiro chip biológico. Se considerarmos que uma rede neuronal não é mais do que um chip, no tipo de informação electroquímica que transmite, a reversibilidade dos termos é clara.
O corpo, mesmo o orgânico, é um conjunto de dispositivos de poder socio-culturais tecnologicamente encarnados. As tecnologias são próteses corporais mais ou menos distantes da superfície dermatológica de corpos que, vendo bem, não têm as fronteiras onde se pensa...
E a biotecnologia é um dos lugares onde a tensão moderna corpo tecnobiológico interior/corpo tecnosocial exterior é mais dinâmica...

Google News em forma

O Google News Portugal já tem alertas! E não são só notícias. Inclui também Web (estou curiosa para ver que aplicações) e Grupos.

Portátil a 100 dólares pronto



Negroponte apresentando o seu portátil à manivela!

11.17.2005

Medidas faseadas, o cúmulo da aldrabice!

Este Governo tem a mania das medidas faseadas. São medidas que, na prática, atiram para as costas do Governo seguinte as medidas que eram efectivamente necessárias agora. Mas os lucros políticos contam ser colhidos já... Definitivamente, pensam que somos parvos! Grrr!

Google Base

Mais um novo serviço para uma busca mais facilitada de ficheiros de dados e também para busca dentro de ficheiros de dados: o Google Base.
Mas é mais do que isso: é a tentativa de gerar uma base de dados em que os critérios de classificação dos dados são totalmente construídos pelos próprios utilizadores, ou seja, o sonho da classificação documental adequada ao utilizador. Isto porque quem adiciona um conteúdo adiciona também aquilo que entende serem os seus atributos. E tem interesse em adicionar os atributos mais pertinentes possíveis para que o conteúdo seja de facto merecedor de atenção. E é com base nestes atributos que a bisca futura se fará. Simples, não?
Vejo apenas um obstáculo: a publicidade enganosa de atributos. Vamos a ver como o próprio sistema a gere. Provavelmente bem porque tenderão mesmo assim a ser os menos visitados.

Finalmente!

Até merecem bêjos:)))
O Google News tem finalmente notícias em português e não, não é o que eu temia: não são só brasileiras. Antes pelo contrário, tem imensas fontes portuguesas:)
Bêjos, bêjos, bêjos! Vocemeçês são lindos!!!

11.09.2005

Rearticular o humano num interminável (des)conhecimento

“As Adriana Cavero points out, paraphrasing Arendt, the question we pose to the Other is simple and unanswerable: “who are you?”. The violent response is the one that does not ask, and does not seek to know. It wants to shore up what it knows, to expunge what threatens it with not-knowing, what forces it to reconsider the presuppositions of its world, their contingency, their malleability. The non-violent response lives with its unknowingness about the Other in the face of the Other, since sustaining the bond that the question opens is finally more valuable than knowing in advance what hold us in common, as if we already have all the resources we need to know what defines the human, what its future life might be.” (p. 35), Undoing Gender, J. Butler (negritos meus)

11.08.2005

iPod relança mitologia Apple

Durante uns anos os Macintosh eram aquelas máquinas que qualquer gráfico que se prezasse devia ter. E só. As máquinas Microsoft eram totalmente maioritárias, dominadores e imparáveis.
Hoje, o efeito de halo do iPod fez aumentar em um milhão (não deixa de ser uma gota de água mas enfim, é um virar do jogo...) a venda de Apple Macintosh a novos consumidores. Isto diz tudo sobre o que um consumidor está disposto a fazer para ter a marca Apple em todo o lado...

Telecomunicações webmultimedia

Até aqui já era comum vermos telemóveis com serviços que antes só existiam online, como navegação, email, sms. O fenómeno novo, de marketing, são as parcerias entre os fabricantes de telemóveis e os de software de aplicações: durante esta semana já tivemos um telemóvel Nokia/ Yahoo e agora um Skype.

Kanye West

Confesso que nunca fui o tipo de adolescente que comprava discos; nem sequer de jovem adulta. Muito menos hoje.
Mas sempre ouvi muita música. Comercial. Na rádio.
Até que, há meia dúzia de anos, parei. Passavam-se dias, semanas, sem me dirigir ao leitor de cds e ouvir um cdêzito. Triste, muito triste.
Por fim voltei a ouvir coisas familiares e, de há uns mesitos para cá, comecei a sacar novidades, a ouvir compulsivamente coisas novas, a desejar ser surpreendida.
E é isso mesmo: se querem uma enorme e alegre surpresa vejam só a música e a produção deste senhor, por exemplo no seu último Late Registration. Um show total. E, ainda por cima, he's got brains!

11.07.2005

Geração rasca ou políticas rascas?

Dou aulas no Barreiro. A minha escola tem uma forte presença de alunos negros; presença que pode rondar os 50% no 7º ano mas que se reduz a 10, ou 5% no 12º...
Nos arredores do Barreiro existem bairros maioritariamente negros e/ou pobres.
Os alunos contam-me como, durante o Euro 2004 (há pouco mais de um ano, portanto), existia um recolher obrigatório tácito para os jovens desses bairros que se traduzia no ataque indiscriminado das forças policiais de intervenção aos jovens que se encontrassem na rua, ou a caminho de casa, depois do entardecer.
Os meus alunos têm medo da Polícia, e raiva, muita raiva. Mesmo aqueles que são doces, muito doces.
E assim se contêm, digo "integram", os jovens dos bairros desfavorecidos em Portugal.
É uma questão de tempo até que a revolta se contagie; uma questão de tempo. Valha-nos o hip-hop...

Bookcast:)

É a podcastização dos livros, à medida dos interesses e tempo dos utilizadores: acesso página a página, ou capítulo a capítulo, à vontade do freguês. O muito comentado Google Print.

Googlificação da Microsoft

A Microsoft avança no sentido da personalização total, e num só serviço, de toda a experiência doméstica que um utilizador pode ter da web, com este Windows Live (agregador de conteúdos, email e msn ). Pena que se tenham esquecido que entretanto a net está hiper-multimedia e hiper-podcastizável... Ou seja, este é um serviço que já devia ter aparecido, aí há um ano, ano e meio, se quisesse realmente liderar alguma coisa agora...

Sindicalices

Um interregno dedicado grandemente a estruturar algumas propostas para a Assembleia de sócios do SPGL (amanhã às 17h):
- uma a exigir o pagamento de horas extraordinárias de todo o serviço convocado como serviço de acompanhamento de alunos (e não só do realizado)
- uma a exigir o pagamento de horas extraordinárias pelas horas lectivas não reduzidas em cargos de natureza pedagógica
- uma a contestar que as faltas para assistência à família sofram penalizações na aposentação
- uma a considerar que as actividades de acompanhamento de alunos, tal como descritas no Despacho recente que as regula, são muitas vezes impossíveis de realizar e como tal devem ser sumariadas
Tudo de acordo com a lei já vigente, sem necessitar de mais nada a não ser duma interpretação aguerrida e não defensiva.